História do Grande Mestre criador e fundador da equipe Bonsai Jiu-jitsu.

Narrado pelo seu filho Mauricio Dai.

Mestre Adilson Souza nasceu em 27/11/58. Sua história se inicia nas artes marciais por problemas na escola. Por sofrer muito bullying na sua época por ser sempre o grandão da turma (mestre Adilson tinha quase 1,90) não era de levar desaforo pra casa, pois naquele tempo seu Pai Senhor Antônio, capitão da Polícia, dizia que caso ele apanhasse na rua levaria outra surra quando chegasse em casa.

Então seus professores chamaram seus pais na escola dizendo que seria bom que o colocasse em alguma arte marcial para que ele gastasse um pouco de energia e diminuísse mais aquela agressividade que ele tinha e sua mãe, Dona Beatriz, que era do lar e sempre foi aquelas super mães, o levou para uma academia de karatê.

Porém como meu pai dizia, aquilo na verdade só piorou porque depois de algumas aulas e alguns anos ele ficou mais briguento, pois tinha aprendido a brigar e a bater de verdade. Meu pai nunca foi um cara bonzinho se assim posso dizer. Diferente de hoje em dia as coisas eram mais no mano a mano e se resolviam na porrada e meu pai sempre gostou muito de lutar e brigar também. -se diverte ele contando.

Mas certo dia um amigo seu o chamou para treinar judô e ele gostava de um desafio topou o desafio,  pois esse seu amigo japonês “Toshio” era forte, porém baixo e pequeno comparado a ele. E o resultado foi que ele levou um Cacete e era derrubado e jogado no chão toda hora e dominado sendo impossibilitado de dar seus socos e chutes que eram seus fortes dado o seu tamanho.

E o resultado não poderia ser diferente. Iniciou se no judô na associação Nipo-brasileira de vila cartão e ainda assim continuo no karatê, mas aí a paixão pelo judô foi maior. Um dos fatos interessantes era que como vinha de família humilde e não tinha dinheiro para pagar a academia, pediu para o professor deixar  ele fazer faxina nos banheiros e tatame para poder treinar. Então ele chegava mais cedo para fazer o serviço e ainda tinha que ficar até mais tarde pra limpar a academia.

E também a situação era tão precária que quem fazia seus próprios kimonos era sua mãe. E ele dizia que o kimono era feito de saco de farinha, na época os kimonos não eram como hoje e eles pareciam saco mesmo. Só que o problema era quando ele suava e aparecia o emblema da santista (marca da farinha) e o pessoal já começava a tirar sarro. E aí não dava outra, na hora do treino ele descontava a zuação. Lá continuou e competiu onde seu jogo forte era o jogo de chão, onde ganhou a maioria de suas lutas.
Nessa época já teve contato com o jiu-jitsu e se dava bem com lutadores na época que visitavam a academia de seu professor, pois o jiu-jitsu era somente chão e ele tinha esse seu jogo forte e ainda tinha o jogo de pé também. Mas naquela época o jiu-jitsu não estava tão bem visto e o judô tinha maior visibilidade. A partir daí largou as brigas começou dar aulas pra ajudar seu professor e a partir daí começou a levar a sério, ser mais responsável e ser exemplo. Deu aula nos maiores e melhores colégios da região da Penha, Vila Dalila e Vila Matilde, onde ganhou nome, prestígio e respeito.

Ao contrário do que seu pai queria, que fosse militar, optou pelo esporte e lá seguiu até o fim de sua vida. Outro caso de muito orgulho para ele foi quando certa vez foi viajar com seu pai e seu pai (meu avô) teve um infarto e logo foi socorrido por ele. Depois de passado o susto o médico veio até ele e contou que graças ao pronto atendimento e os primeiros socorros dado pelo seu filho teve tempo para não deixar nada pior acontecer. Seu pai deu lhe um sorriso e disse ao médico: -meu filho é lutador por isso. Isso acredito que foi a maior medalha e reconhecimento que ele poderia ter ganho na sua vida.

Me lembro que toda vez que ele contava essa história, seus olhos brilhavam de orgulho.
Passado algum tempo e por problemas políticos teve que ficar afastado do judô e das competições. Viu aí uma oportunidade de mais uma vez abrir um novo caminho. O Jiu-Jitsu.

Isso foi em meados de 90 e ele por já ser faixa preta de judô foi automaticamente a faixa marrom e para receber a sua faixa preta ele foi chamado na antiga federação em Santana e lá teve que fazer 8 lutas e ganhar ao menos 5. E mesmo assim no dia que iria receber seu diploma foi barrado pelo Mestre Otávio de Almeida.
E mesmo dizendo que foi aluno de um aluno do seu pai, Mestre Otávio disse que só liberaria caso ele fosse  treinar frequentemente com ele em sua academia para avaliá-lo. Mas para ele aquilo mais uma vez foi combustível e serviu de motivação. E lá ia ele 2 X por semana cruzar da Vila Dalila até Pinheiros.

Dai se iniciou uma amizade de alguns bons anos onde ele recebeu sua faixa preta e tomou juntamente com Mestre Otávio à frente da federação paulista de jiu-jitsu. Me lembro que às vezes meu pai me largava dando aulas na academia e saia interior a fora pedindo aos professores para se filiar e competir os campeonatos da federação que hoje conta com mais de 30.000 filiados e é umas das maiores do mundo.

Fico feliz de ver que chegou onde chegou e meu pai se dedicou tanto somente por amor e nunca fez por dinheiro. Mas meu pai mesmo assim competiu até onde Deus e sua saúde permitiu e mesmo aos 49 anos lutou e mesmo na época de master onde tinha uma luta no adulto ou alguém duro, lá estava ele para brincar e experimentar como ele dizia.
Outro fato curioso era que após um acidente de moto e uma queda de um telhado na sua casa ele teve uma fratura em sua vértebra cervical. Ele teve que ficar quase 6 meses em casa, na cama e impossibilitado de fazer atividades físicas. A partir daí ele foi proibido e diagnosticado pelos médico de lutar, pois qualquer esforço na cervical ele poderia ficar paraplégico.

Mas como todos devem saber, isso não aconteceu e ele continuou lutando e contrariando médicos e especialistas. Ele sempre dizia a nós, seus filhos e alunos, que ele não usaria uma marca e criaria a sua. Fico feliz,  pois me lembro que quando não éramos nada e íamos em campeonatos e treinos de visita,  o que ganhávamos era muita surra e escovadas. Chegava uma hora que de tanto treinarmos e não negarmos treino até os faixas brancas nos escovavam. Mas com o tempo nós evoluímos e acredito que ele, primeiramente, e nós filhos fomos os primeiros a realmente se destacar e colocar a Bonsai como uma academia de respeito, tradição e acima de tudo com conceito de família através de muito trabalho duro.

Sempre acreditamos que meu pai era como um Ronin (samurai sem Mestre) pois tantas vezes foi desafiado, desacreditado e através do seu trabalho e sempre nos colocar junto nas suas batalhas da vida como pessoa, lutador e não só através de suas vitórias mas de como se portar quando derrotado e desqualificado, nos mostrou o caminho de como reagir e como se levantar. Por isso posso dizer que ser lutador ou professor vai além do lutar e sim do mostrar de como se superar, de se levantar tanto na vida como nos tatames.

E hoje nos sentimos honrados de termos reconhecimento no Brasil e ao redor do mundo através de cada semente de Bonsai que foi plantada. Esperamos que isso seja o nosso principal conceito de qualidade bonsai de fazer atletas e cidadãos.

E a vida não parou de lhe pregar peças pois em 98 teve um derrame e infarto onde eu o socorri e pude ver o quão lutador teria que ser não só no tatame, mas na vida. Porque após um derrame com nível de 1 a 5, o médico o diagnosticou em nível 4 e infarto de nível 3 e teve todo seu lado esquerdo paralisado. Ele mais uma vez me fez um pedido, que o levasse para o sítio e o deixasse lá. E que lá ele faria a fisioterapia dele. Depois ele nos relatou que tinha vergonha de estar naquele estado e não queria que as pessoas o vissem daquele jeito. E lá ele faria a fisioterapia dele e descansaria.

A princípio ficamos preocupados, pois dado o estado de saúde dele, como ele faria as coisas básicas e se cuidaria com o dia a dia, remédios, comida etc…. mas nós não éramos nem loucos de contrariá-lo. Um belo dia após quase 1 mês ele reapareceu na academia e nos disse. -me inscreva no campeonato internacional na categoria e absoluto.

E treinou mais uma semana e foi para o Rio de Janeiro e se sagrou campeão na categoria e vice no absoluto. Mal acreditávamos e muitos até hoje nem sabem que ele teve paralisia total do seu lado esquerdo. Essa foi mais uma de suas peripécias da vida como homem e como lutador. O nosso samurai.

Muitos também não sabem mas Mestre Adilson nunca estudou engenharia mas ele dizia que a vida fez dele a sua faculdade. Na nossa primeira academia todos aparelhos de musculação foi ele quem fez. Não tínhamos dinheiro para comprar, então ele comprou uma máquina de solda e aprendeu a soldar. Depois pedia pra eu levá-lo nas lojas e falava que queria comprar o aparelho, mas a academia era pequena e ele precisava ter uma ideia de tamanho do aparelho e lá ele ficava medindo. E isso quando já não pegava a amizade com o vendedor e contava a verdade e as pessoas acabavam deixando ele medir tudo certinho.

E era engraçado que naquela época não era como hoje com a internet, às vezes se faltava algo ou para comprar algo você tinha que atravessar a cidade para ver, medir etc…. por isso tínhamos aparelhos que demoravam meses. Esses aparelhos nós usamos na academia até meados de 2013 e somente hoje conseguimos Trocar por outros novos, importados e atuais.

Tudo isso graças a um cara louco e que queria vencer na vida, mas só conseguimos isso com o dinheiro que ganhamos com os que ele construiu.

Mas eu e meus irmãos sempre brincamos que foi tudo graças a ele, e que ele ficaria muito orgulhoso, mas caso ele fosse vivo duvido que deixaria nos comprarmos esses aparelhos caros e bla, bla, bla ele iria dizer que faria pela metade do preço e muito melhor. E como sempre dizia em “dois palitos ou com as mãos nas costas”  humildade não era muito seu forte, não pra essas coisas rs…

Mas a vida sempre nos prega peça. E certo dia estava nos Estados Unidos e falando com ele sobre a minha permanência lá e que iria começar a dar entrada no meu greencard, disse que queria ir ao Brasil e descansar um pouco e depois teria que ficar um tempo sem retornar ao Brasil. Foi quando ele me disse que seria legal pra eu descansar e ajudar ele pois ele estava com uma dor no joelho e aproveitaria pra cuidar do joelho e fazer uns exames pois estava sentido dores no estômago e costela. E assim eu o ajudaria com as aulas aqui na academia.

A princípio achei meio estranho pois ele não reclamava de nada e eu só o tinha visto de cama uma 2 ou 3 vezes na vida. Mas quando chegamos aqui e fomos ver a coisa era bem mais seria. Ele foi diagnosticado com câncer de pâncreas e um dos mais agressivos possíveis e que já havia muita metástases. O médico me chamou de canto e disse que ele não teria muito tempo de vida.

A pergunta sempre lógica. -quanto tempo 1ano , 2 ?? Porém não era o que eu esperava ouvir. É o mais duro golpe que já tomei na minha vida como lutador. Seria não mais que 3 meses. O difícil era contornar e não contar a minha família. Ter que guardar e ficar com aquilo só pra mim e sem poder dividir com ninguém. Nem ao menos contar para ele. será que era certo, mentir para ele? Mas na minha cabeça até o último instante, para um cara que a vida bateu, duvidou, teve que recomeçar do zero e lutar depois de “velho” pra mostrar seu valor, um cara que era proibido de lutar pelos médicos, quase morreu, ficou de coma meses, sofreu infarto, derrame e 1 mês depois foi campeão de um campeonato internacional. Ahhh… ele ia calar a boca de muita gente.

Mas dessa vez não deu, e o cara lá em cima disse que era a vez dele. E durante esses 10 ou 11 meses, isso mesmo, ele foi vencido, mas mais uma vez não se vendeu ou rendeu fácil e contrariou mais uma vez os médicos e triplicou seu tempo de vida. E mesmo nos exames, quando tinha que ficar internado ele dava um jeito de ensinar, mostrar seu valor e deixar um ensinamento.

Mesmo proibido pelos médicos não deixou de querer e de trabalhar, de dar bronca e cativar médicos e enfermeiros. Difícil não era o dia que chegava lá e não via várias pessoas conversando com ele, e ele dando bronca em médico, enfermeiro e ainda ver o quanto admiravam ele pelas histórias e tudo que ele falava. Às vezes ele comprava doces, chocolates e voltávamos lá no hospital para  presenteá-los com um mimo.

E isso se repetiu várias vezes, e me sinto privilegiado de contar e dividir isso com vocês. Essa história da bonsai se confunde com a história do meu pai, porque não sei se bonsai foi meu pai ou meu pai foi a bonsai. Às vezes me pergunto aqui qual história estou contando.

No dia 01 de maio de 2011 a senha dele lá em cima foi chamada. E mais uma vez vi alguém lutar e não querer se entregar. Alguém que dizia que ainda tinha muito o que fazer e ensinar e que ainda ia nos bater muito. E pra encerrar com chave de ouro, ele reclamou de muita dor naquele dia. E o médico pediu para falar com o responsável e nessa hora fui honrado de tal decisão. O médico disse que nem morfina estava mais adiantando e ou ele daria uma dose alta que poderia levá-lo a óbito ou deixá-lo sofrer.

Pra mim que vi o tanto que ele sofreu nesses longos meses, que foi abdicado de fazer aquilo que ele mais gostava (como ele mesmo relatou várias vezes) que era lutar e trabalhar, seus maiores gostos dessa vida. Achei que a vida já tinha cobrado e judiado muito daquele que não merecia sofrer pela história e homem que foi, por ser tão novo e ainda querer fazer tanto e realizar tantos sonhos. Autorizei que o fizessem. O médico pediu para que nos filhos e minha mãe ficássemos lá pois ele não aguentaria mais do que 1 ou 2 horas.

Difícil né, você saber que você tem um prazo pra viver, ou para desfrutar dos últimos minutos da pessoa que você ama e sempre foi seu super herói. Difícil aceitar que seu super herói não é tão super herói e que super heróis morrem e que eles não são invencíveis. Difícil acreditar que a vida não termina com o que nos acostumamos que é “felizes para sempre”, pelo menos não nessa vida ou nesse nosso plano espiritual.

Mas mesmo assim ele nos contemplou com mais quase 8 horas de luta, sim ele lutou não por 2, mas contrariou os médicos e ficou lá resmungando, apertando minha mão e lutando por aquilo que ele mais prezou e cuidou. A vida.

Me senti honrado de poder dizer que acompanhei ao lado dele no leito cada vez que ele tentou se mexer, e certa hora inacreditável quase 6 horas depois ele abriu o olho e falou.
-Filho, tá foda!!!
-Vai descansar que eu vou me virando aqui.

Espantado disse, fica tranquilo pai, vou ficar aqui, está todo mundo aqui. E ele disse:
-Não se preocupem comigo, eu To bem. Deu um sorriso virou e dormiu.

Foi a última vez que o vi de olhos abertos e falei com ele. Quando se passava da meia noite ele apertou minha mão, como se me chamando. Deu um suspiro forte, depois mais um e se foi. Foram mais que 9 horas daquele sábado onde tentaram interromper aquela dor e sofrencia de todos. Mas ele lutou pois honrado como foi, não deixaria até a data de sua morte ser importante.

Deixou para falecer no dia 1 de maio (dia do trabalho). Primeiro de Maio, dia do falecimento do meu ídolo e ídolo de uma nação (Ayrton Sena) mas a partir de agora seria dia não mais do trabalho, e do meu ídolo que era outro agora. Meu ídolo, Mestre, amigo, pai, super herói. O cara que não quis usar uma marca, mas queria criar uma.

Por isso hoje eu e meus irmãos estamos na labuta. Sim, ainda existe uma luz, uma semente nos sonhos que ele tinha. E esta plantada em cada filho seu, em cada aluno que ele sempre considerou como filhos de coração. Pois sempre cobrou e brigou com todos como se filhos fossem.

Obrigado e espero que essa semente continue dentro de cada um que carrega a Bonsai, que carrega aquela caricatura, com o adesivo no carro ou no kimono. Honrem esse kimono e tenham amor com sua armadura e com sua vida. Amem cada suspiro, cada treino, o direito de poder treinar e trabalhar. Pois ali vi um homem que daria qualquer coisa hoje para estar aqui treinando, lutando, dando aula e levantando cedo pra trabalhar no quer que seja.

Sejam honrados e levem isso pra suas vidas. Não acumulem somente medalhas, mas histórias como desse homem que marcou a vida de muitos. Pois estamos em uma fila da morte e nossa senha é invisível. Por isso desfrute de tudo isso.

Me despeço e agradeço por chegar onde chegamos com muito trabalho, noites mal dormidas e muito, muito trabalho. Mas na beira do tatame que me encontro aqui agora, já chorei inúmeras vezes lembrando de cada momento e que não foram todos que consegui contar mas o tatame vazio e, gigante na empresa que sempre sonhamos dar a ele, mas na certeza de que ele está vendo tudo isso. O trabalho de uma vida.

Mas que fica mais legal quando tenho vocês para compartilhar a história e o tatame, pois caso não tiver pra quem contar e passar essa história e o tatame pra ensinar aquilo que foi honrado de aprender e poder ensinar, bater, apanhar, cair e levantar…não teria graça, não faria sentido. Não seria uma história de Adilson Antônio de Souza, não seria história da Bonsai Jiu-Jitsu.

Osssss…..bonsai mais que uma equipe, mais que uma academia. A extensão da sua família.

Sou Mauricio Dai Souza
Yoroshiku onegaitashimassu